Proximidade e Educação Social: “Famílias Amigas” no Acolhimento Residencial
Resumo
O acolhimento residencial de crianças e jovens em situação de perigo continua a ser uma resposta necessária no sistema de proteção em Portugal. No entanto, os efeitos prolongados da institucionalização sobre o desenvolvimento emocional e social dos menores são amplamente reconhecidos como prejudiciais, sobretudo pela ausência de vínculos afetivos estáveis e de experiências familiares positivas. Neste contexto, o presente artigo analisa o projeto “Famílias Amigas”, uma iniciativa implementada numa instituição de acolhimento residencial do norte de Portugal, que visa mitigar os efeitos da institucionalização através da integração afetiva e informal de crianças e jovens em lares de famílias voluntárias durante os fins de semana e períodos de férias.
Realizado num projeto de investigação-ação, com base numa metodologia qualitativa de carácter descritivo e reflexivo, e na análise de dados institucionais, este estudo procura compreender os objetivos, a operacionalização, os impactos e os desafios do projeto. São abordados aspetos como a criação de vínculos afetivos seguros, o reforço da autoestima, a ampliação das redes de apoio emocional e a construção de memórias afetivas significativas para os jovens acolhidos. A fundamentação teórica recorre às contribuições da Teoria da Vinculação e da Educação Social. Os resultados indicam que o projeto tem efeitos positivos no bem-estar emocional e social das crianças, contribuindo para a sua integração e desenvolvimento pessoal. No entanto, também se identificam limitações, nomeadamente o risco de dependência emocional, a dificuldade de cobertura a todas as crianças institucionalizadas e a exigência de um acompanhamento técnico contínuo. Conclui-se que o projeto “Famílias Amigas” é uma prática de proximidade inovadora e eficaz, com elevado potencial de replicação em outros contextos, desde que sustentado por uma equipa técnica qualificada e comprometida.
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PDFReferências
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